28.11.07

Velho Safado

De todos os malditos, Charles Bukowski talvez seja o mais pop.

Agora, antes de ser xingado, apedrejado e consequentemente morto, deixe-me explicar a tal afirmação blasfema. Não quero dizer que Bukowski seja popular como uma leitura fácil e/ou comercial, e sim que é um dos autores da geração beat mais procurados nas livrarias. Suas homéricas bebedeiras, as diversas mulheres (que deram até nome a um de seus livros) e a vida semi-nômade que levava sempre atiçaram a curiosidade das pessoas.

Apesar dessa ótima repercussão ter dado ao autor várias publicações de grandes editoras brasileiras, pouco se conhece do lado poeta do escritor de Hollywood, Pulp e Factotum. Seis obras já haviam sido publicados no Brasil: a coletânea bilíngüe “Os 25 melhores poemas de Charles Bukowski” pela Bertrand, “Hino da Tormenta”, “Tempo de vôo para lugar algum”, “Vida desalmada”, “À toa em San Pedro” pela independente Spectro Editora e “Essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo amém” pela editora 7 Letras.

Eis que ontem, circulando descompromissadamente pela Cultura, dei com as fuças com uma edição recém-lançada pela LP&M de "Amor é um Cão dos Diabos" (Love is a Dog From Hell), seu livro de versos mais conhecido escrito entre 1974 e 1977. A obra é inspirada nos relacionamentos retratados no romance “Mulheres”, sendo que ambos títulos foram publicados quase ao mesmo tempo. Tem 304 páginas e custa 35 pilas, com uma edição bem bacana (não é pocket) e tradução bem legal. Se você gosta de Bukowski corra, essas edições costumam virar raras rapidinho.

Eu já garanti o meu.

Mudando de assunto, como o assunto de hoje é literário, vou divulgar um novo fórum sobre o tema. Um lugar bacana, desenvolvido por gente bacana e com usuários bacanas falando sobre assuntos bacanas. Para bom entendedor, meia palavra basta.

27.11.07

Teclas Brancas

Falei por cima do novo álbum da Polly Jean neste post aqui. Disse que a ex-mocréia não ficou totalmente satisfeita com “Uh-Huh Her”, seu último disco de estúdio e que resolveu apostar em sonoridades diferentes em um novo trabalho que levou o título de White Chalk, por usar e abusar das teclas brancas do piano, foi produzido em conjunto com John Parish e blá-blá-blá.

Depois de um longo e tenebroso inverno tive oportunidade de escutar o tal disco da moça com mais atenção, para concluir que se não é o melhor de sua carreira, com certeza é o mais intimista e renovador, já que é totalmente contrário ao que qualquer fã esperaria da cantora e suas guitarras distorcidas, sons eletrônicos e voz rasgada. O que é ótimo, afinal é sempre bom ver algo de novo no front, ainda mais quando esse “algo de novo” é algo inesperado e bom.

O disco tem uma aura sombria pairando sobre ele, explicitada na capa que traz estampada uma Polly Jean Harvey toda de branco em um fundo negro que parece querer engoli-la, seu ar melancólico foi inspirado no quadro “White Girl” do pintor James Abbott McNeill Whistler de 1861. As canções seguem no mesmo ritmo, procurando isolamento, como em “Silence” que se desliga de toda sua família e até de si mesmo.

O álbum também traz composições que remetem à infância da moçoila, como em “Grow Grow Grow”, onde cria uma distante imagem de sua mãe e em “To Talk To You”, a faixa mais triste do universo, em que a cantora tenta sem sucesso um contato com o avô. O primeiro single do disco é também sua música mais marcante, “When Under Eter”, fala sobre uma pessoa em coma em versos que arrepiam só de imaginar a situação: “a mente está viva, mas sem consciência de nada, ela quer sobreviver”, deu para entender o contexto, não?

Polly Jean excluiu quase que totalmente seu “lado rock” desse novo trabalho, optando por uma mistura de uma sutil bateria quase imperceptível ao fundo e instrumentos como piano, gaitas, harpa e banjo. Mas, apesar de todas as diferenças com tudo que produziu até hoje, em White Chalk continua presente a intensa carga emotiva despudorada que a acompanha, claramente perceptível no grito agudo e espalhafatoso da música “The Devil”.

No final de seus poucos mais de 30 minutos o ouvinte percebe que a essência não se perdeu, foi aprimorada.

23.11.07

This room is fuckin’ evil

Rápido! Faça de cabeça, pegando as primeiras opções que ocorrerem, um top five maneiras horrorosas que tenho medo de morrer.

Já fez??? Tenho certeza que pelo menos quatro opções estão presentes em "1408". Dá só uma olhada na lista: medo de morrer queimado, afogado, congelado, degolado, enforcado, emparedado, com o pé sendo puxado por um zumbi-desdentado-bizonho dentro da tubulação de ar condicionado. Estão todas lá, não necessariamente nessa mesma ordem, mas estão.

Concordo que é inevitável a comparação de “1408” com “O Iluminado”, por vários fatores, como se passar um hotel esquisitão, ter um personagem principal esquisitão, ser baseado em uma história esquisitona de Stephen King, que por si só é muito esquisitão. Mas, tente abstrair e esqueça todas essas coincidências esquisitonas, afinal, “O Iluminado” é “O” filme de suspense, sendo até injusto julgar qualquer outro pelos parâmetros do longa-metragem de Kubrick.

“1408” é sim um filme bacana que tem seus pontos fortes. Não é uma obra-prima do cinema, mas é melhor que muita porcaria lançada por aí (leia Jogos Mortais I, II, III, IV, XX e por aí vai). Entretanto, não pense que ser um filme legal se deve à história (Stephen King não escreve nada que preste há 20 anos) ou a uma direção extraordinária de Mikael Hafström (mais perdido que cego em tiroteio), mas sim a atuação de John Cusack que salva o filme de um naufrágio em um falso final bizarro e totalmente desnecessário.

Cortando em miúdos, como só o bom e velho Jack faria, Cusack encarna Mike Enslin, um escritor que após um livro de estréia excelente, perde a filha, detona o casamento, sai de casa, fode com tudo e afunda sua carreira escrevendo guias sobre lugares mal-assombrados. A velha história do cara bacana que se torna um ególatra chafurdando em autocomiseração.

Quando parece que a vidinha dele vai continuar na mesma pelos próximos 20 anos, TCHAN-NAM-NAM-NAM: o cara recebe um cartão postal sobre o tal quarto 1408 do Hotel Dolphin em New York, onde após uma pesquisada rápida ele descobre que já morreram 30 e tals pessoas. Óbvio que ele logo parte para lá para “desmascar” a bodega, e é mais óbvio ainda que ele está prestes a se foder de verde e amarelo.

Chegando lá, ele conhece o sinistrão gerente do lugar (Samuel L. Jackson), que tenta dissuadi-lo da idéia contando que não foram trinta e poucas pessoas, mas sim 56 defuntos retirados do quarto, com o pequeno detalhe: ninguém viveu mais que uma hora lá dentro. Ó-B-V-I-O que daí o cara não desiste mesmo e caí para dentro do muquifo mal-decorado, não colocando uma fé que vai se foder. E se fode.

Mal resolveu um probleminha de menor importância com o ar-condicionado e Enslin vê o relógio do quarto começar a marcar uma contagem regressiva. O tempo? Uma hora, claro. Só então ele percebe que meteu o bedelho onde não devia, mas não dá mais para voltar atrás, o quarto o tranca lá dentro e começa a zoar a mente do cara. Uma hora de bons sustos e aflição para o espectador, até o tal final falso idiota. Mas, mesmo com esse deslize, o filme consegue terminar sem decepcionar ninguém e manter o clima assustador, um programinha interessante para domingo à tarde pagando meia entrada.

Quanto ao top cinco do começo, ficou meio lógico que foi por causa do John Cusack, não?

22.11.07

Choque Cultural

Sei que é cuspir no molhado, mas não canso de repetir que adoro morar em São Paulo. Não apenas pela contemporaneidade que a cidade expressa em cada esquina, tanto no Centro Velho repleto de mendigos, com sua decadência urbana necessária que subversivamente embeleza grandes metrópoles - o lado negro da força - quanto nos Jardins e sua prosperidade exacerbada, responsável pela renovação dos costumes de quem habita esse lugar que é muito mais que trânsito e poluição.

O que me prende a São Paulo são seus espaços. A imensa quantidade de lugares bacanas que a cidade proporciona a quem corajosamente a desbrava. Desde os pequenos e aconchegantes cafés escondidos em galerias e bairros residenciais, aos mega complexos empresariais onde milhares de pessoas bem vestidas entram e saem diversas vezes ao dia, impassíveis, perdidas em seus próprios pensamentos. Cada um com seus próprios espaços secretos (ou não) espalhados pela teia de ruas e avenidas que constituem O lugar.

Um desses espaços, desses que chamo de meu, secreto, mas nem tanto, é a Choque Cultural, uma galeria de arte que namora a cultura underground impregnada em cada parede que compõe São Paulo.

Nada na Choque é costumeiro ou conservador. O projeto serve como uma ponte que liga as manifestações e intervenções que surgem pela cidade ao restante da sociedade, uma espécie de plataforma para artistas vindos de outras praças, como o graffti, o design gráfico e a tatuagem, que não encontrariam espaço no circuito da arte mais certinho e apegado as regras. Lá se encontram os trabalhos de nomes como Silvana Mello (para quem não reconhece o nome, a moça também foi vocalista da banda Lava), e dos grafiteiros Speto, Highraff e Zezão (que ficou conhecido pelas suas incursões artísticas nos esgotos paulistas) e muitos outros artistas que não fazem um trabalho nem um pouco convencional.

O projeto Choque Cultural foi fundado por Mariana Martins, filha do pintor Aldemir Martins, Baixo Ribeiro, e Eduardo Saretta e surgiu como uma editora, com edições limitadas, numeradas e assinadas de posters, livros, stickers, brinquedos e outros objetos colecionáveis. Só mais tarde veio a galeria e suas primeiras exposições coletivas, como a Calaveras, a Catalixo e a Erótica que definiriam os rumos que a casa tomaria.

Desde sua fundação em 2004, suas paredes estão sempre repletas de cores e formas, estilo que atraiu muitos admiradores e abriu de fato uma nova frente de negócios envolvendo a arte feita por jovens e para jovens. Em três anos de existência a Choque tornou-se a principal referência quando o assunto é arte underground, vanguarda, graffiti, tattoo, cultura pop, street art, arte urbana, low Brow, etc., motivos a transformam em um dos espaços mais criativos da cidade.

Galeria Choque Cultural
Rua João Moura, 994 – Pinheiros
Fone: (11) 3061-4051
Site: http://www.choquecultural.com.br/

19.11.07

Notícias notáveis (3)

Entre nós, esses feriados consecutivos foram uma puta sacanagem, não? Claro que não estou me referindo a ficar em casa, mas sim ao fato de ficar-em-casa-com-chuva-e-depois-ter-que-trabalhar-sexta-e-segunda. Sacanagem.

O pior é que esse tempo dá uma preguiça danada. Veja só: tem álbum novo do Rogério Skylab, apareceu outra inglesinha maluca, fui assistir 1408, encontrei uma edição bacana de Santuário, do Faulkner, mas estou com nhaca demais para falar sobre isso. Aquela coisa que parece ficar engastada em nosso corpo nos dias cinzentos e chuvosos.

O que vim fazer aqui? Além de enrolar para ver se a hora passa? Só comunicar que foram finalmente confirmadas as apresentações dos nova-iorquinos do Interpol em terras canarinhas. É isso aí, pode se preparar para escutar um “Bua Notche, San Paolo” diretamente vindo das digníssimas cordas vocais do senhor Paul Banks, vocalista do grupo.

A banda atualmente divulga seu terceiro disco, “Our Love To Admire”, lançado em meados de julho e bastante elogiado pela crítica (e também por uma amiga minha fanática pelos caras). As apresentações serão em São Paulo, no dia 11 de março, Rio de Janeiro, no dia 13 e Belo Horizonte, no dia 15.

Mas, se você é fã dos menininhos de terninho e sonham estar nos anos 80, pode começar a correr. Aqui em Sampa os ingressos estão à venda no Via Funchal desde o dia 13 de novembro a preços nada módicos: R$ 100 pista, R$ 120 mezanino e R$ 160 camarote. Totalmente fora da minha realidade. Mundo injusto e cruel!

Mais informações para o show de SP: Via Funchal.

16.11.07

Barba, cabelo e bigode

Ninguém me avisou. O trailer do novo filme da maravilhosa bat-dupla Tim Burton & Johnny Depp está disponível na internet há mais de um mês e não teve um imbecil que me avisasse.

O título do novo longa-metragem do diretor mais pirado do universo é Sweeney Todd: The Demon Barber Of Fleet Street, um musical macabro inspirado na peça de autoria do compositor e letrista estadunidense Stephen Sondheim. O Filme conta a história de Benjamin Barker (Johnny Depp), um barbeiro expulso injustamente de Londres e enviado as galés que vê sua esposa e filha caírem em desgraça através das mãos do juiz que o deportou.

O cara retorna à Londres anos depois sob o pseudônimo de Sweeney Todd e se une a quituteira Mrs. Lovett (Helena Bonham Carter) em um plano de vingança: usa a cadeira de barbeiro para assassinar seus clientes, enquanto ela pega os restos mortais para assar tortas que viram a sensação de Londres. Sinistro como só Tim Burton consegue ser.

A película tem aquele ar sombrio que já é marca registrada do diretor, como em A Lenda do cavaleiro Sem Cabeça, Noiva Cadáver e Beetlejuice (me recuso a escrever a tradução nacional desse título) e quem viu disse que o final é de roer as unhas. U-hu!

A estréia do filme lá fora é prevista para o Natal, mas aqui no Brasil é para o dia 18 de janeiro de 2008, segundo o IMDB. Mal posso esperar para ver Johnny Depp cantarolar cortando dezenas de gargantinhas. Você também, não? Então assista o trailer abaixo para matar um pouco da vontade.


15.11.07

O Maioral

Sempre gostei mais do lado negro da força. Darth Vader ao invés do Mestre Yoda, Mulher-Gato ao Batman, Spock Gêmeo Malvado do que o gêmeo bobão, Hulk Hoogan contra Ted Boy Marino. Não adianta, o vilão é sempre mais interessante que o herói.

Obviamente isso era um pé-no-saco quando só existiam duas classes de personagens nos quadrinhos: os heróis bonzinhos repletos de problemas emocionais que afetavam grandemente sua sexualidade usando cuecas para fora das calças ou os vilões. Esses últimos, párias incompreendidos que só se fodiam. Não adiantava torcer por eles, era batata que no final da história iam acabar apanhando, por mais que isso seja o avesso da realidade, onde quem sacaneia o próximo sempre se dá bem.

Há uns vinte anos atrás a coisa começou a mudar para melhor. O sarcasmo e a ironia tomaram conta dos quadrinhos dando origem a novos personagens: os anti-heróis, muito mais bacanas, que não eram vilões comunistas comedores de criancinhas, mas tão pouco eram mocinhos conservadores pregando a virgindade antes do casamento. Nesse meio ganharam destaque rostos novos como John Constantine, Spider Jerusalém, Guy Gardner e ele, o maioral: Lobo.

Virei fã do maior caçador de recompensas da galáxia logo quando o conheci em 1991 nas páginas da falecida DC2000, mais especificamente nas histórias da L.E.G.I.Ã.O., uma espécie de polícia galáctica sob o comando de Vril Dox, um alienígena de pele verde e cabelo loiro. Seu estilo meio headbanger, cabelo comprido, jaqueta jeans com a escrita “Bite Me, Fan Boy”, correntes e coturno, contrariavam a estética dos personagens da época, com seus colantes esquisitos e pega-rapaz. Algo parecido aconteceu em Sandman, com o estilo gótico de Morte e Morpheus.

Na verdade, Lobo já havia aparecido antes, na revista Omega Men (acho que nem chegou a sair por aqui), bem diferente em sua roupa e origens, um velorpiano de cabelos roxos e colante roxo com amarelo. Ganhou o visual atual, inspirado na banda Kiss, quando foi reformulado para as páginas de L.E.G.I.Ã.O., a grande responsável pela popularização d’O Maioral. Atualmente, após a mini-série “Lobo Unbound”, seu design foi aperfeiçoado para aproximar-se do cantor/diretor Rob Zombie, da finada banda trash White Zombie.

Bem no começo de carreia como caçador de recompensas intergaláctico, ele quase nem aparecia, fazia apenas uma ou outra ponta, mas o seu jeito canalha e desbocado amealhou fãs, o que rendeu a mini-série publicada ainda em 1991: “Lobo: O Último Czarniano”, que narrava uma história solo do psicopata preferido dos quadrinhos, contando como ele exterminou toda sua espécie para ter o prazer de ser o único sobrevivente. Ninguém pode negar que ele tinha personalidade própria, não é?

Daí para frente a coisa deslanchou para Lobo, saiu na porrada com quase todos os grandes nomes da DC, desde Superman ao Batman, Judge Dreed e tantos outros, morreu, foi ao inferno, detonou o capeta, foi cuspido para o paraíso e quebrou tudo e todos por lá. O cara fez tanto sucesso que lhe rendeu até uma série própria e em uma ocasião especial arrebentou o Papai Noel em “The Lobo Paramilitary Christmas Special”, mini-série motivo deste artigo enorme.

Essa mini-série nem é a de maior destaque de Lobo, mas sabe-se lá por que lhufas, uma cambada de nerds psicóticos da Americam Films Institute, com muito tempo, fizeram um curta-metragem inspirado em seu roteiro. O vídeo, que eu desconhecia até ontem, foi ao ar em 2002 na Comic2Film. Não é um primor de produção, mas a caracterização de Lobo é muito bacana e os outros personagens, principalmente o coelho da páscoa, lembram um pouco os cangurus de “Tank Girl”.

Como não tinham grana, os produtores tiveram um pouco de dificuldade com o cenário. Por exemplo, a arma gigantesca de Lobo virou uma pistola semi-automática, coisa totalmente perdoável para quem viu a qualidade da adaptação, melhor que muita obra hollywoodiana que circula por aí.

Pelo que li na internet, até o advento do milagreiro YouTube, era muito difícil conseguir assistir ao filme, pois ele não tinha autorização da DC Comics para circulação. Mas agora é possível encontrar até a versão legendada que você pode conferir abaixo em duas partes. E se resolver reclamar da qualidade da película, lembre-se da frase: “Ninguém difama o Maioral. Não se quiser manter as entranhas do lado de dentro”.


13.11.07

Museu Bizarro

Nada como o ócio para alegrar nossa vida, não é? Eis que esse inútil que vos fala, num desses momentos sagrados de aleatoriedade cerebral, pulava de site em site web afora e deu de cara com um lugar bizarro, daqueles que dão arrepio em cu de caranguejo do Alasca. Certo, certo, admito que na verdade nem é tão assustador assim, mas é bizonho de qualquer forma.

O tal lugar é o Mütter Museum, cantinho agradável e aconchegante, cuja decoração é feita por uma diversa coleção de objetos médicos e "tesouros patológicos", como uma lindíssima coleção de jarros com fetos de todos os tamanhos que estão em uma prateleira de destaque. Fofo!

O museu pertence ao The College Of Physicians of Philadelphia e foi criado para que os alunos tivessem contato com fenômenos da medicina que não fossem lá muito comuns e em 1871 passou a colecionar objetos médicos obsoletos. Na coleção há, por exemplo, um estetoscópio feito pelo seu inventor, o francês René Théophile-Hyacinthe Laennec (e ainda falam do meu singelo nome) e mais de 2.000 objetos removidos das gargantas e vias repiratórias de pacientes, como botões, brinquedos, dentes, alfinetes (???) e outras coisas mirabolantes passíveis de serem enfiadas goela abaixo por um imbecil qualquer.

Achou pouco? Relaxa, isso é só o começo. O Mütter conta com uma parede repleta de crânios de diversas origens, até um verdadeiro pirata, outros com ferimentos a bala, machadadas, deformidades genéticas e lindezas afins. A coleção de objetos de cera tem 276 modelos de patologias criados entre os séculos 17 e 19. Estes objetos eram utilizados em aulas de medicina e substituiam materiais orgânicos difíceis de conservar. Há modelos de tumores, úlceras, eczemas, e lesões de sífilis e outras doenças agradáveis.

Ainda pode-se comparar o esqueleto de um gigante de 2,30 metros com o de um anão, dar uma espiada em como é o cérebro de um assassino e um monte de outras coisas que qualquer psicopata comum acharia o máximo. Só não é muito recomendável uma visita próximo do horário do almoço.

Endereço - Philadelphia College of Physicians, 19 South 22nd Street

12.11.07

Sobre Devo, Kasabian e otras cositas

Sábado, oito horas da noite. Depois de uma hora perdido em ruelas escuras próximo da Marginal Pinheiros, encalhar no trânsito do largo 13 de Maio para pedir informação a um taxista baixote, careca e meio vesgo e morrer com trinta pilas no estacionamento, finalmente consegui chegar ao nosso tão almejado destino: O festival Planeta Terra 2007, realizado na altura do número vinte mil e lá vai cacetada da Avenida Nações Unidas.

Devido a essas pequenas trapalhadas perdi o show do Pato Fu (quem disse que foi muito bacana), chegando já no início da apresentação do Instituto Racional que realmente surpreendeu a todos. Deixou uma ótima impressão em quem, assim como eu, não conhecia o projeto encabeçado pelo ex-Planet Hemp BNegão, o veterano Carlos Dafé, a cantora Negra Li, o rapper Kamau e o guitarrista Peu (ex-Pitty).

A organização do evento foi fantástica, além de escolherem a Villa dos Galpões para realização do festival (lugar muito bacana e cujos galpões antigos com vidros quebrados conferem um ar meio junk ao espaço, desde a segurança, localização da praça de alimentação, até a higienização dos banheiros foi perfeita. O destaque também ficou para os lambe-lambes, criados pelos próprios pagantes e colados por uma equipe em diversos pontos espalhados pelos galpões.

A única mancada que presenciei não foi proporcionada por ninguém da organização, mas pelo nosso querido punk-de-butique-com-sérios-problemas-de-auto-afirmação, o Supla. Algumas garotas pediram uma foto para o cara que respondeu na lata, curto e grosso: “To aqui para assistir o show!”. Não entendo muito bem esse povo famoso, passam a vida querendo ser reconhecidos, quando o são reclamam por não conseguirem passar despercebidos.

Enfim, deixando isso de lado, dos shows mais esperados da noite, o Cansei de Ser Sexy fez uma apresentação bacana, com uma Lovefoxxx com uma postura de palco bem diferente daquela que tocou no Brasil há 18 meses pela última vez. Agitaram o Indie Stage com suas músicas mais conhecidas e ainda apresentam uma nova canção intitulada “The Beautiful Song” que agradou o público.

Com uma apresentação impecável, The Rapture fechou as apresentações do palco Indie. Os hits “House of Jealous Lovers” e “Get Myself Into It” colocaram toda a platéia para dançar. O grupo foi o único do espaço a voltar para um bis: uma versão sem pausa das músicas “First Gear” e “Olio”.

No Main Stage, Lily Allen subiu no palco totalmente breaca, portando um microfone verde-limão esquisito. Fez um show lastimável e deixou a dúvida se realmente não tem voz ou se estava apenas afetada pelo excesso manguaça. Eu voto nas duas opções.

Quem realmente surpreendeu foram os tiozões do Devo, que estão muito melhores que há vinte e poucos anos atrás. Vestidos com o tradicional uniforme amarelo e seus chapéus vermelhos, os cinqüentões abriram o set com a clássica “That's Good”. Depois, mandaram uma seqüência com os hits “Peek-a-Boo!”, “Girl U Want”, “Whip It!”, “Secret Agent Man’, “(I Can't Get No) Satisfaction”, “Uncontrollable Urge” e “Mongoloid”. Toda a platéia chicoteava o ar no refrão de “Whip It!”. Já em “Mongoloid” - música que ganhou uma releitura do Sepultura - Mark animou os fãs com dois pompons vermelhos, como se fosse uma cheerleader endiabrada. Faltou só “Time Out for Fun”, mas a gente perdoa, afinal eles provavelmente poderiam ter um ataque cardíaco se continuassem a gritar e pular.

Um fato que chamou atenção de todos que assistiam o show foi Fernanda Takai, vocalista do Pato Fu, subindo no palco e surrupiando um dos uniformes amarelos para o marido enquanto um segurança tentava tirá-la de lá.

Vou admitir que fiquei com dó do Kasabian, fechar um festival depois do show do Devo não deve ter sido fácil. Ainda mais se estavam tão chapados quanto pareciam. Acredito que para a maioria do público que foi lá para assistir a banda inglesa saiu decepcionado. O show foi super monótono, com uma performance caricata de Tom Meighan usando um chapeuzinho coco no estilo Clockwork Orange.

A banda iniciou ao som de “The Ecstasy of Gold”, do maestro italiano Ennio Moriconne, o que foi uma promessa de uma grande apresentação. Logo em seguida engredou “Shoot The Runner”, um dos singles do ainda inédito disco no Brasil Empire, mas soava tão afetado que sequer parecia a mesma banda que havia gravado o disco. Parecia mais um cover mau ajambrado deles mesmos. Reason Is Treason, sucesso do álbum de estréia do grupo, saiu quase irreconhecível, assim como quase todas as outras músicas do set list dos caras que deixaram seu maior hit, “Processed Beats” para a parte final do espetáculo.

Agora, se você teve a estranha impressão de cruzar com alguém conhecido no meio do público durante o show do Kasabian, provavelmente está certo. Lily Allen assistiu toda apresentação de seus compatriotas do meio da platéia, quase imperceptível. Foi engraçado ver quem ao seu lado lançar um olhar assustado e meio descrente de que seria realmente ela ali de saia e Havaianas.

Coisas de inglês.

9.11.07

Na flor da pele

Você sabe o que é escarificação? Não? Pois senta aí quietinho que o titio te explica.

Escarificação não é nada mais, nada menos do que formar desenhos no corpo de uma pessoa através de cicatrizes que podem ser criadas das mais diversas formas. Na verdade existem muitas técnicas para cortar-marcar-queimar o corpo de uma pessoa, mas disso vou falar depois.

Não se engane ao pensar que essa prática é uma invencionice moderna criada pelo demo, a escarificação existe há alguns milhares de anos em diversas tribos africanas, indianas e do sudeste asiático. Nas Américas era praticada pelas tribos Olmecas, civilizações pré-colombianas que habitaram o sul do México entre 1.200 a.c. e 400 a.c., quase sempre com finalidade ritual. Ainda hoje mulheres sudanesas adornam o corpo com cicatrizes elaboradas para se tornarem mais atrativas na hora de encontrarem um parceiro (toda tampa tem uma panela, a não ser que você seja uma cumbuca) e em papua Nova-Guiné são feitos cortes na pele dos garotos que atingem a puberdade e cobertos com cinzas que influenciam a criação de quelóides, consideradas belas naquela cultura.

Nas civilizações modernas (aquelas que conseguirão destruir o mundo em menos de 200 anos), só recentemente a escarificação deixou de ser pratica exclusiva de cenários S&M e passou a ser encontrada também em outras tribos urbanas motivadas pelo efeito estético que a cicatriz planejada cria na pele.

Técnicas

Não são poucas as maneiras utilizadas para escarificar a pele, pode acreditar. A maioria das técnicas são totalmente experimentais, e provavelmente devem surgir em conversas amigáveis como: “Vamos tentar ácido dessa vez? Deve ficar supercalifragilisticaexpialidosamente foda!”.
Singelo, não? Bem, se é assim que surge uma nova técnica eu não sei, mas vamos as mais utilizadas:

Cutting

Simples como o nome indica, baseia-se em cortar a pele até uma profundidade exata, na maioria das vezes com um bisturi cirúrgico, repetidas vezes e ir formando um desenho.

Aviso: Se você corta os braços com um estilete, rabiscando mensagens alegres e positivas como “Dor”, “Morte”, “Desespero” e variantes, não é um artista e sim um retardado, procure tratamento. Caso um dia for cortar os pulsos não me avise.

Skin removal ou Skinning

É uma variante do Cutting. Ao invés de só talhar a pele da pessoa, o artista remove (“removal” te sugere algo?) áreas da pele para formar uma cicatriz bem mais detalhada e com desenhos mais complicados.

Aviso: Faca de pão não serve.

Branding

Tssssssss! Esse é o barulinho que a pele faz a cada strike do ferro quente. Lembra como se marca gado? Então, é mais ou menos parecido. Segundo os praticantes, o branding por aquecimento de metal não dá um resultado muito consistente e a melhor opção é o bisturi elétrico e suas diversas pontas opcionais.

Aviso: Deixe seu ferro de solda na prateleira da garagem, espertinho.

Chemical Scarification

A essa altura do campeonato já deu para perceber que não é difícil identificar como funcionam as técnicas de escarificação, não é? Chemical é de química, logo, escarificação através de reações químicas. Simples assim. Os reagentes usados são os mais variados possíveis, desde nosso querido acido sulfúrico a hidróxido de sódio (aquele bacanudo do Clube da Luta). O resultado nem sempre é um desenho reconhecível, muitas vezes são só marcas que parecem feitas por homens das cavernas.

Aviso: Não usar soda caustica. Dói.

Cicatrizando

Ao contrário de uma tatuagem ou um piercing, uma bela escarificação não depende somente do artista. 50% do processo é determinado pelo escarificado, mais exatamente pelos métodos utilizados para a cicatriz ficar o mais aparente possível. Outro fator importante é o DNA, o tipo de pele ajuda muito nessa hora também, um pequeno corte pode gerar uma cicatriz aparente em uma pessoa, enquanto um removal pode sequer deixar marcas em outra. O tempo de cicatrização é relativo, leva em média 45 dias, mas há quem demore meses para ver o resultado final do trabalho.

Pode ser necessário usar algum procedimento para aguçar a ferida, como por exemplo tirar as cascas que se formam ou aplicar sal e café, forçando uma infecção. Entretanto-todavia-contudo, o método mais difundo entre s artistas dessa arte de body modification é o Litha ou “Leave it the hell alone” (adoro essa expressão).

Bem, agora você já sabe o que é escarificação, mas se pretende fazer uma, saiba que no Brasil existe um ou outro que se aventura ao explorar esse tipo de modificação, mas ainda engatinhamos perto de países como a Austrália e os EUA que tem estúdios especializados em extreme modifications.

Para saber mais sobre escarificação acesse a enciclopédia da BMEZine. Todas as fotos publicadas nesse artigo são obras de Wayde Dunn, na minha humilde opinião um dos grandes mestres dessa arte.