27.11.07

Teclas Brancas

Falei por cima do novo álbum da Polly Jean neste post aqui. Disse que a ex-mocréia não ficou totalmente satisfeita com “Uh-Huh Her”, seu último disco de estúdio e que resolveu apostar em sonoridades diferentes em um novo trabalho que levou o título de White Chalk, por usar e abusar das teclas brancas do piano, foi produzido em conjunto com John Parish e blá-blá-blá.

Depois de um longo e tenebroso inverno tive oportunidade de escutar o tal disco da moça com mais atenção, para concluir que se não é o melhor de sua carreira, com certeza é o mais intimista e renovador, já que é totalmente contrário ao que qualquer fã esperaria da cantora e suas guitarras distorcidas, sons eletrônicos e voz rasgada. O que é ótimo, afinal é sempre bom ver algo de novo no front, ainda mais quando esse “algo de novo” é algo inesperado e bom.

O disco tem uma aura sombria pairando sobre ele, explicitada na capa que traz estampada uma Polly Jean Harvey toda de branco em um fundo negro que parece querer engoli-la, seu ar melancólico foi inspirado no quadro “White Girl” do pintor James Abbott McNeill Whistler de 1861. As canções seguem no mesmo ritmo, procurando isolamento, como em “Silence” que se desliga de toda sua família e até de si mesmo.

O álbum também traz composições que remetem à infância da moçoila, como em “Grow Grow Grow”, onde cria uma distante imagem de sua mãe e em “To Talk To You”, a faixa mais triste do universo, em que a cantora tenta sem sucesso um contato com o avô. O primeiro single do disco é também sua música mais marcante, “When Under Eter”, fala sobre uma pessoa em coma em versos que arrepiam só de imaginar a situação: “a mente está viva, mas sem consciência de nada, ela quer sobreviver”, deu para entender o contexto, não?

Polly Jean excluiu quase que totalmente seu “lado rock” desse novo trabalho, optando por uma mistura de uma sutil bateria quase imperceptível ao fundo e instrumentos como piano, gaitas, harpa e banjo. Mas, apesar de todas as diferenças com tudo que produziu até hoje, em White Chalk continua presente a intensa carga emotiva despudorada que a acompanha, claramente perceptível no grito agudo e espalhafatoso da música “The Devil”.

No final de seus poucos mais de 30 minutos o ouvinte percebe que a essência não se perdeu, foi aprimorada.

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