A tatuagem moderna brasileira tem um vánculo estreito com a gelada Dinamarca. Foi desse país do norte Europeu que veio Knud Harald Lykke Gregersen, simplesmente conhecido por Lucky Tattoo, o primeiro tatuador profissional a atuar no país.No dia 20 de julho de 1959, o tatuador dinamarquês, loiro e corpulento, desembarcou na cidade de Santos, apresentando-se às autoridades como desenhista e pintor. O Arquivo Nacional ainda conserva sua ficha de registro na Delegacia Especializada de Estrangeiros, com o número 78655 destacado no documento.
Estabeleceu-se em um primeiro momento na rua João Otávio, localizada próximo ao porto e na época freqüentada por muitos marinheiros, os principais clientes . Logo depois, no ano de 1963, mudou para a rua General Câmara onde montou seu estúdio com os dizeres “It’s not a saylor if he hasn’t a tattoo” (“Não é um marinheiro se não tiver uma tatuagem”) impressos em uma placa na porta de entrada. Seu ateliê ficava ao lado do restaurante Chave de Ouro, o mais famoso da Boca, o equivalente santista da Lapa carioca, ou ainda do Red District de Amsterdã.
Lucky, ou “Mr. Tattoo” como era chamado pelos clientes, logo se tornou notícia sendo fotografado pela Folha de São Paulo em 07 de janeiro de 1960, menos de seis meses após sua chegada ao país. Antes dele a cultura da tatuagem era inexistente no país, os poucos que carregavam uma tattoo no corpo limitavam-se quase sempre a prostitutas e marinheiros, que tinham seus corpos desenhados por estrangeiros vindos com os navios ancorados no porto e com eles partiam deixando apenas a arte como sinal de sua passagem.
Knud Harald Lykke Gregersen, nasceu na cidade de Copenhague em 14 de maio de 1928, filho de Jens e Ema Gregersen. Seu pai transmitira a ele e ao irmão Ole a paixão pelos pigmentos, era tatuador e seu nome bastante conhecido na Europa dos anos 30 e 40.
Lucky passou quase toda a infância no ateliê do pai e lá aprendeu as técnicas de tatuar com máquina elétrica. Antes de fazer da tatuagem seu principal meio de vida, tornou-se marinheiro aos quinze anos e pagava as viagens e a alimentação com seu trabalho, coloria tripulações inteiras enquanto vagava pelos mares internacionais. Em entrevista ao jornal carioca O Globo, publicada no dia 4 de dezembro de 1975 (meia página do primeiro caderno, com o titulo "Tattoo Lucky, o único tatuador profissional da América do Sul"), Lucky contou ter conhecido o Rio de Janeiro em 1946, aos dezoito anos com um amigo. Seu depoimento é um retrato de duas épocas: os anos 40, à luz do dia, e os anos 50, 60 e 70, à noite.
Trabalhou em Londres, Hamburgo, Gênova, Atenas, e Nova York, numa atividade frenética em terra firme e no mar. Em uma viagem para Rotterdam na Holanda, conheceu Peter de Haan, antes deste consagrar seu nome como Tattoo Peter, um dos lendários tatuadores da old school. A mulher de Peter era cantora, e Peter a acompanhava no acordeom. Peter largou aquela vida por volta da década de 50 e entrou de cara na tatuagem e veio a abrir aquele que seria o estúdio mais antigo da Europa, sobrevivendo após a morte de seu criador em 1984.
Lucky ainda tatuou na Alemanha pós-guerra, usava como estúdio ambulante uma moto equipada com side-car e gosta de narrar a história onde teria tatuado o próprio Rei Frederico da Dinamarca e soldados da Legião Estrangeira.
Na década de 70, quando a tatuagem começou a quebrar alguns tabus e deixou para atrás o estigma de uma arte marginal voltada para marinheiros e prostitutas, penetrando um pouco na classe média, Lucky tatuou muitos jovens cariocas, entre eles José Artur Machado, o “Petit” (1956-1989), cujo dragão inspirou Caetano Veloso a compor a canção “Menino do Rio” e o ator Evandro Mesquita, na época vocalista da banda Blitz, que carrega no braço uma águia de autoria do dinamarquês.
Em 1977, o então jovem Sílvio Santos, entrevistou o tatuador para seu programa na extinta TV Tupi, chegou ainda a ir ao programa de auditório de Flávio Cavalcanti e ter um curta-metragem sobre sua vida produzido.
Lucky permaneceu em Santos durante dezoito anos, mudou-se indignado para Itanhaém, cansado de ser assaltado, permanecendo lá por cinco anos com um. estúdio em Jardim Suarão. Transferiu-se então para Arraial do Cabo, no estado do Rio de Janeiro, onde ficou um ano, até morrer do coração em 17 de dezembro de 1983, com cinqüenta e cinco anos de vida e tatuagem.
Ao morrer, o “Mr. Tattoo” contava quarenta e cinco mil tatuados, em trinta anos de carreira, vinte e quatro dos quais no Brasil. Sua Morte ganhou a primeira página do jornal santista A Tribuna (em cujo arquivo se encontra o mais vasto material sobre a vida do tatuador), na qual a morte do dinamarquês naturalizado brasileiro ocupa mais da metade da página. O texto é assinado por dois tatuadores, um americano e um italiano, que trabalharam no Brasil: Johnathan Shaw e Ciccio.
As atividades declaradas no registro da Delegacia Especializada de Estrangeiros, pintor e desenhista, não eram mentirosas sob nenhum aspecto. Lucky pintou em tela sua clientela, seus vizinhos e amigos, as cenas do porto de Santos com traços primitivistas, que não agradaram os críticos, como nem sempre suas tatuagens agradaram.
Uma pequena parte dos clientes de Lucky não ficava satisfeita com o serviço, que comparado às técnicas modernas não prezavam pela perfeição, e voltavam em outros tatuadores para cobrir o trabalho. Ainda hoje quando entra algum insatisfeito em um estúdio disposto a “reformar” uma tatuagem dele quase sempre os tatuadores tentam fazer o arrependido entender que, por mais imperfeita que seja a arte, uma tatuagem de Lucky significa muito.
Lucky não tatuou apenas as pessoas, gravou a máquina seu nome na história da tatuagem internacional.
1 comentários:
Caros amigos, meu nome é Braulio C. Bibanco e moro no interior de São Paulo. Fiz a minha 1ª tatuagem em 1.979 com o Mr. Lucky Tatoo em Santos, é uma serpente Naja, detalhe: o Mr. fez a serpente com a ponta do rabo com guizo (Cascavél). Na época eu tinha 14 anos de idade e no dia ele titubiou em faze-la, pois eu era menor. Acho que ele percebeu minha tristeza e perguntou se eu já tinha pelo no saco, e eu disse que sim, então "Você então já é um homem" e fêz. Chegando em casa meu pai viu a obra prima em meu braço e meu bateu até cansar, não me arrempendi até hoje. Um abraço a todos.
Postar um comentário